/The Age of Divinity/

«En aquel tiempo, el mundo de los espejos y el mundo de los hombres no estaban, como ahora, incomunicados. Eran, además, muy diversos; no coincidían ni los seres ni los colores ni las formas. Ambos reinos, el especular y el humano, vivían en paz; se entraba y se salía por los espejos. Una noche, la gente del espejo invadió la Tierra. Su fuerza era grande, pero al cabo de sangrientas batallas las artes mágicas del Emperador Amarillo prevalecieron. Éste rechazó a los invasores, los encarceló en los espejos y les impuso la tarea de repetir, como en una especie de sueño, todos los actos de los hombres. Los privó de su fuerza y de su figura y los redujo a simples reflejos serviles. Un día, sin embargo, sacudirán ese letargo mágico.»

Jorge Luís Borges, “Animales de los espejos”,
in Libro de los seres imaginarios.

Esta jornada poderia ser encarada como o início de uma estória, um relato ténue daquilo que se poderia apelidar de imaginação manifesta. É uma jornada acerca da nossa condição de seres imaginantes, entidades não governadas por normas da ciência, da razão ou da verdade, mas antes governadas pelo tributo dos sonhos e dos pesadelos na configuração de uma expressão do mundo. No conto de Jorge Luís Borges descreve-se um tempo no qual as criaturas que viviam nos espelhos, ao apoderar-se do espaço terreno que era pertença do ser humano, são novamente aprisionadas e condenadas eternamente a mimetizar e a refletir a imagem do mundo “real”. Nesta obra do escritor argentino, baseada no mito chinês do Imperador Amarelo e da fauna existente nos espelhos como universo alternativo, somos confrontados com a ideia de “seres” irrequietos – imagens desobedientes – que se transportaram para a nossa realidade para aí iniciarem a destruição e o caos. Dir-nos-á a história das crenças que, graças a um poderoso feitiço do Imperador Huang Di, os entes foram controlados e derrotados.
A estória que se deseja contar cresce da reflexão em torno da relação “real” ↔ “imaginário”, imagem e reflexo. Ambos os conceitos são considerados como momentos que se nos impõem e que, através da arte, se cruzam ou trocam de lugar, produzindo sombras, aterrorizando padrões de representação, razão ou verdade, fundindo ou deformando relações simbólicas que esperaríamos estáveis. Assim sendo, observe-se o artista como aquele que lança falsificações para a “realidade real” e também, vice-versa, aquele que aprisiona essa mesma “realidade” nas representações e nos objetos que cria. A noção de parergon, exposta por Jacques Derrida1 como o espaço entre – o dentro e fora simultâneos - institui interpretações de simultaneidade, ambiguidade, permeabilidade e contaminação. O artista enquanto pecador demiúrgico, ilusionista e falsificador, xamã e feiticeiro, é consciente da força das imagens que criou durante milénios (e de outras que renovou, substituiu ou raptou) e da sua eterna função em fazê-las coincidir com a imago da divindade. Na sua obra Hyperion oder Der Eremit in Griechenland (Hipérion ou o eremita da Grécia,17972), Hölderlin apresenta, num formato estruturado por cartas, a nostalgia relativamente aos dramas seculares exaltando a natureza divina, sublinhando um conjunto de forças invisíveis, conflitos, ideais de beleza e de esperança. A noção que temos ao ler algumas das suas passagens, noção essa perfeitamente ilustrada pela luta da independência grega, é a de que, agora, trata-se antes de saber falar com os deuses, estar verdadeiramente ao seu nível («O primeiro filho da beleza humana, divina, é a arte. Nela o homem divino rejuvenesce», Hipérion). O que significa que homem e deuses estão juntos, nenhum se suplanta ao outro, não existe desafio possível. Heidegger, intérprete de Hölderlin, afirma em jeito de epígrafe na sua obra completa3 «Wege – nicht Werke!», «caminhos – não obras!», intitulação que apresentará em torno de vários dos seus escritos, por exemplo Marcas do caminho (1935-1946) ou A caminho da linguagem (1950-1959). Na sua conferência Hölderlin e a essência da poesia (1936), Heidegger induz uma aproximação da poesia a uma compreensão quasi-instrumental, tendo na palavra poética uma espécie de excelência da palavra em si mesma, do rigor de sentido, a partir do qual a nomeação poética consagra um resvalamento do ordinário para o transfigurado, para o extraordinário (Paul Valéry acerca de Mallarmé afirmará mesmo que a poesia se veicula a um estado anterior à escrita e à própria crítica). Não poderemos, contudo, assegurar que o poeta ou o artista visual – como aqui pretendemos – domina a natureza apenas pelo facto de a nomear ou que a determina através de uma sua representação, mas que tal nomeação é uma escuta sensível a partir da subjetividade criativa, desembocando nos “caminhos da linguagem”, ou seja, nas múltiplas bifurcações de que nos fala Borges. Poder-se-ia também afirmar que em Borges se encontra aquilo que Paul Virilio salientou como a “inutilidade” dos mapas, das referências, da cartografia, diríamos por assim dizer, da representação. Algumas das linhas de Borges também perscrutam a crença utópica de Virilio na qual, num futuro possível poderíamos encarar esta possibilidade da “inutilidade”, de forma a afastarmo-nos da obsessão com a metafísica e com o virtual (virtual aqui entendido como algo que não se encontra aqui e agora), caminhando na senda de valorizar e testemunhar, antes, a realidade na sua imediaticidade. Ora, como se viu em autores como Kant, Heidegger ou Zizek, é ao homem impossível obter uma experiência direta dessa mesma realidade por existir sempre uma distância ínfima entre a nossa compreensão do mundo e a experiência de estar no mundo. Aquilo que a história de Borges ilustra (e que se pode reler a partir de Virilio) é que a distância entre a apreensão cognitiva da realidade (mundo) e a realidade ela mesma foi algo trabalhado pela modernidade e pela pós-modernidade como uma espécie de “desertificação do mundo” (por exemplo descrita por Zizek em Bem-vindo ao deserto do real)4. Passemos então através do espelho e, aí, encaremos o ponto de vista que não reflete, mas que deixa ver através. O que nos chegará primeiro enquanto criaturas que olham: o espelho ou aquilo que vemos nele refletido? Talvez como no conto de Borges, estes “entes-reflexos” possam agora reemergir do “ecrã-espelho” como verdadeiras presenças.
Assim sendo, e a partir da poesia como pretexto, a exposição THE AGE OF DIVINITY é uma leitura aberta que procura desapontar a esperança de um qualquer literalismo, e que solicitou a cada artista a apresentação de uma obra que envolvesse e que explorasse alguns dos devaneios descritos anteriormente.

Hugo Barata, Lisboa, novembro de 2012

This journey could be seen as the beginning of a story, a tenuous story of what might be called manifest imagination. It's a journey about our condition of imagining beings, entities not governed by rules of science, reason or truth, but rather governed by the tribute of dreams and nightmares in setting up a world of expression. The tale of Jorge Luis Borges describes a time in which the creatures that lived in the mirrors, to seize the land space that belonged to the human being, are again imprisoned and condemned eternally to mimic and reflect the image of the "real world ". In this work of the Argentine writer, based on the Chinese myth of the Yellow Emperor and the fauna existing in the mirrors as alternate universe, we are confronted with the idea of restless "beings" - disobedient images - that moved here to our reality to start destruction and chaos. The history of beliefs tells us that, thanks to a powerful spell of Emperor Huang Di, the entities were controlled and defeated.
The story that we want to tell grows around the relationship between "real" ↔ "imaginary," reflection and image. Both concepts are considered moments that we consider important and that, through art, intersect or change places, producing shadows, terrorizing patterns of representation, reason or truth, melting and deforming symbolic relationships that we expect to be stable. Therefore, we shall observe the artist as one who throws fakes to the "real reality" and, vice versa, one that imprisons the same "reality" in the representations and objects he creates. The notion of parergon, exposed by Jacques Derrida as the space in between - the inside and outside simultaneously – introduces concepts like concurrency interpretations, ambiguity, permeability and contamination. The artist as demiurgic sinner, illusionist and forger, shaman and sorcerer, is aware of the strength of the images that have been created for millennia (and others renewed, replaced or kidnapped) and their eternal role in coincide with the imago of divinity. In his work Hyperion oder Der Eremit Griechenland (Hyperion or the hermit of Greece, 1797), Hölderlin presents a structured format for letters, nostalgic respect to secular dramas extolling the divine nature, emphasizing a set of invisible forces, conflicts, and ideals of beauty and hope. The notion that we have on reading some of his passages, is that this notion is perfectly illustrated by the Greek struggle for independence, is that, now, the question is about to be able to speak with the gods, to rise up to their level ("The first child of human beauty, the divine, is art. Here the divine man rejuvenates”, Hyperion). This means that man and the gods are together, none outshines the other, there is no challenge possible. Heidegger, interpreter of Hölderlin says in way of title in his complete works "Wege - Werke nicht!", "Ways - not works!”. Entitlements present around several of his writings, eg Off the Beaten Track (1935-1946) On the Way To Language (1950-1959). In his conference, Hölderlin and the essence of poetry (1936), Heidegger induces an approximation to an understanding of poetry quasi-instrumental, taking a kind of poetic word excellence of the word itself, the sense of rigor, from which the poetic appointment devotes a slippage of the ordinary for the transfigured, for the extraordinary (Paul Valéry about Mallarmé assert that even if the poetry conveys to a state prior to writing and criticism itself). We cannot, however, ensure that the poet or visual artist - as you want - dominates nature just because the name that he determines or through its representation, but that such an appointment is a sensitive listening from the creative subjectivity, ending in "paths of language", ie. the multiple bifurcations that Borges tells us about. One could would also say that in Borges we find what Paul Virilio has pointed out how as the "uselessness" of maps, references, or cartography, we would say so to speak, of the representation. Some of the lines of Borges also peer the utopian belief of Virilio, speaking of a possible future in wich we could face this possibility of "futility" in order to move away from the obsession with metaphysics and the virtual (virtual here understood as anything that is not here and now), walking on the path to value and testify before the reality in its immediacy. However, as seen in authors such as Kant, Heidegger or Zizek, for man is impossible to get a direct experience of that reality because there's always a tiny distance between our understanding of the world and the experience of being in the world. What Borges's story illustrates (and you can reread from Virilio) is that the distance between the cognitive apprehension of reality (the world) and reality itself was something worked by modernity and postmodernity as a sort of "desertification of the world "(eg described by Zizek in Welcome to the Desert of the Real). Let us then slide through the mirror, and there, let's face the viewpoint does not reflect, but let’s see through it. What will come in first while looking creatures: the mirror or what we see reflected in it? Perhaps as in Borges's story, these "reflexes-beings" may reemerge now from the "mirror-screen" as real presences.
Hence, and from poetry as a pretext, the exhibition THE AGE OF DIVINITY is an open reading frame that seeks to disappoint any hope of literalism, and asks each artist to submit a piece that involves and explores some of the daydreams described above.

Hugo Barata, Lisbon, november of 2012

1DERRIDA, Jacques, The truth in painting. Chicago: University of Chicago Press, 1987, p.9.
2Cf. HÖLDERLIN, Johann Christian Friedrich, Hipérion ou o eremita na Grécia. Lisboa: Assírio&Alvim, 1997.
3Cf. HEIDEGGER, Martin, Gesamtausgabe. Frankfurt : Vittorio Klostermann, 1975.
4 C.f. ZIZEK, Slavoj, Bem vindo ao deserto do real. Lisboa: Relógio de Água, 2002.